Qualquer gordo tem Blog

07/04/2009

Rocky IV, viés e as mensagens ideológicas dos anos 80

 

 Reza a lenda que durante a Guerra Fria, EUA e URSS resolveram levar suas desavenças no campo político para as pistas de corrida. Representando os imperialistas do ocidente, o americano Ford. Do lado das repúblicas populares do oriente, o esforçado Zim russo. Não deu zebra na disputa. O Ford ganhou com bastante vantagem. Segundo a estória, o principal jornal soviético retratou assim a corrida: Carro russo chega em 2º e americano em penúltimo (não exatamente assim. A manchete devia estar em russo com caracteres cirílicos).

 Um outro campo em que se deu essadisputa foi no ringue, pelo menos na atração de hoje à noite no SBT: RockyIV.  É duro para mim, ter que escrever essas linhas, porque esse era (e continua sendo) um dos meus filmes favoritos, mas eu preciso admitir: A trama era tosca, extremamente maniqueísta, inverossímil (como, aliás, são todos os filmes da série) e pró-americana, mas até por isso mesmo um exemplo ímpar daquilo de como passar uma imagem enviesada e o papel da imagem nesse processo.

 Rocky IV é igual a outro filme dos anos 80 que explorava essa dicotomia EUA x URSS, a saber, SupermanIV Em busca da paz (Lex Luthor queria vender para os russos o superser que ele criou para antagonizar com o azulão). O vilão é um sujeito branquelão, enorme, extremamente frio (“Se morrer, morreu”, uma das poucas frases proferidas pelo Capitão Ivan Drago na saga de Balboa) e produto da mais alta tecnologia (o vilão de Supeman é forjado graças a um fio de cabelo do Super e muita energia solar. E Drago, graças aos anabolisantes e as máquinas de exercício) enquanto o americano é um cara simples, justo e que luta pelo bom nome da sociedade americana. Clark Kent nasceu no Kansas, numa família humilde e salva a Estátua da Liberdade. O treinamento de Balboa consiste em cortar lenha, escalar montanhas e correr na neve. Não conhece nada de política, mas não admite ver o seu país ser motivo de chacota dos soviéticos.

 

É o triunfo da imagem. Mas do que o roteiro de Stallone, o conteúdo imagético do filme trata de enviesar a mensagem. A opulência da sociedade de consumo norte-americana representada pelo “Godfather of the Soul” James Brown e seu magnânimo show em Las Vegas cantando justamente “Living In America” acompanhado do “Pai da Pátria” Apollo Doutrinador (cujo calção com motivos da bandeira americana é herdado por Rocky), a frieza e arrogância dos soviéticos representada pelo casal loiro Ivan e Ludmila Drago (Brigitte Nielsen, que anos mais tarde botou uma galha no Stallone com a secretária dele), a presença da tecnologia avançada (o treinamento de Drago e o robô que Balboa traz pra casa que é mais útil que seu cunhado Paulie), a simplicidade (?) e perseverança do homem médio americano com o treinamento de Rocky, o culto à personalidade presente nos regimes fascistas ilustrado pelas imagens enormes de Lênin, Stálin e Marx (a resposta soviética ao “Living In America” de Las Vegas) e a imagem mais emblemática de todas: Milhares de soviéticos que estavam assistindo a luta no ginásio em plena véspera de natal começam a torcer para o lutador americano (Rocky seria um novo Messias para os soviéticos? A julgar pela sua imagem com a cara ensangüentada, enrolado na bandeira sendo erguido pelo seu “crew”, parece um Jesus pós-moderno ascendendo aos céus com os anjos).

 

Stallone nem precisaria queimar seus (dois) neurônios e escrever um roteiro para Rocky IV. Bastava usar essas imagens isoladas em uma seqüência de 30 segundos (estilo Angry Alien) que passaria a sua mensagem patriota com a mesma eficácia (e economizando uma p*** grana da MGM), mas, apesar do perfil de seus maiores personagens, Stallone não gosta de coisas simples (haja vista o elenco que escolheu para seu filme “Os Mercenários”) e graças a sua mania de grandeza que temos – apesar do conteúdo ideológico e da falta de verossimilhança – um dos filmes mais divertidos de todos os tempos. Pena que depois de Einsenstein, a Rússia não produziu (até onde eu sei) nenhum cineasta de muito renome, e com isso, perdeu a oportunidade de dar uma resposta cinematográfica ao Sly. 

 

P.S.: Ontem passou na Band “Kickboxer3″ aquele rodado no Rio com o Milton Gonçalves e o Gracindo Jr.. Como todo filme no Rio tem trombadinha e gente praticando negócios ilícitos. Stalone está rodando em Mangaratiba um filme em que um grupo de mercenários tenta desbancar uma ditadura sul-americana. Mal posso esperar.

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